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Repes e Poesia
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Repes (Raps) e Poemas de Michelle Albuquerque Ramires

VIDA DE LADRÃO
Michelle Albuquerque Ramires - 07/07/2001

Ambição é o 1º elemento pra colocar o cara aqui dentro.
Rádio, televisão, anúncios de venda de carrão,
gente rica, prostituição. E o menino pobre só na ilusão,
escutando em um rádio velho, num canto da favela,
enquanto a sua mãe faz um rango, assistindo uma novela.
Meu filho, tem que estudar pra um dia se formar.
Mas a grana honesta demora demais. Eu quero ajudar os meus pais.
Quando escuto sobre uma quadrilha, a mente é fraca e o diabo te guia.
Sexo, drogas, carrão: o sonho de alcançar tudo o que viu na televisão.
O menino larga tudo. Primeiro é o estudo.
Depois ele sai de casa, vira ladrão considerado,
se torna um rico e esquece o passado.
A droga é o seu melhor companheiro,
mas leva a família toda ao desespero.
Não demora muito e cai aqui dentro. É aí que entra o 2º elemento.
Só o tempo é capaz de apagar toda essa desgraça.
Menina: estuda, trabalha, não seja só mais uma ordinária
que vai destruir um lar! O que Deus une, quem é você pra separar?

MINHA VIDA NO CRIME
Michelle Albuquerque Ramires - 07/07/2001

Minha vida no crime, agora eu vou te contar
tudo o que aprontei antes de vir pra cá.
Comecei a fumar, fumar maconha.
Primeira droga, eu era maconheira.
E a maconha era a minha melhor parceira.
Parceria de fé! Gostava dela como um homem gosta de mulher.
Mas foi aí que alguém me apresentou, toda de branco, aquela menina.
Perguntei o nome dela. Ela me disse: É cocaína.
Só 2 ou 3 vezes e ela te domina.
Todo o viciado é sempre a mesma sina.
Agora eu era viciada e já não tinha mais nada.
Da escola eu larguei. Na vida do crime eu me formei.
Roubar caranga lá pro desmanche.
A grana era pouca, eu não tinha chance.
Eu queria fazer uma grande.
Fui falar com uma mina e ela estava cheirada.
Foi aí que comecei a andar armada.
Comprei arma e munição.
Mais uns malucos: estava formada a confusão.
1º banco, se demos bem. Eu escapei, os outros também.
2º assalto, tava um boy. Rá, esse também já foi.
Era só chegar e levar. Cocaína eu vou cheirar.
Os assaltos foram acontecendo. As ocorrências tavam crescendo.
A polícia já estava louca,
sem nenhuma pista. Tava todo mundo de touca.
Último assalto e eu ia parar. Já tinha grana e tinha filha pra criar.
O bagulha já estava campanado. Não tinha como dar errado.
Eu estava carregando a minha PT
quando o carinha falou: Telefone pra você.
Era o Marcelo dizendo assim: Tina, vem!
Traz suas armas e munição também.
Juntei tudo, saí apressada, sem saber que a armadilha já estava armada.
Chegando lá, sujou, sujou. A Brigada chegou, chegou.
Mas pra Brigada eu não vou me entregar.
Vou dar tiro até a munição acabar.
Marcelo, seu traidor, tu foi um bom ator!
Mas logo caiu no chão com um balaço no coração.
Tinha que pagar pela traição.
Chegou a civil e a federal.
Vou me entregar. Tenho filha pra criar.
É melhor cadeia que cemitério.
Com a federal não tem brincadeira. O caso é sério.

MULHER GUERREIRA
Michelle Albuquerque Ramires - 15/07/2001

Mulher guerreira, a melhor companheira.
Lá fora se virava, assaltava, traficava ou batalhava.
Não importa a sua profissão. Ela nunca deixou seu vagabundo na mão.
Fim-de-semana, ela saía pra batalha, pra correria.
Antes de sair, dava um beijo nas crianças
e pedia a Deus paz, amor e esperança.
Mulher guerreira, a melhor companheira que um vagabundo pode ter.
São 6 da manhã, ela voltou. O vagabundo se ligou:
tava cheirada. Vai apanhar, sua safada!
Do vagabundo ela cansou.
Esse é bem melhor, é traficante, é da pesada.
Ele sempre dizia: Mulher minha tem que andar armada.
Tava se sentindo, tava numa boa.
Tinha de tudo, jóias, dinheiro, cocaína.
Pra ser rainha, só faltava uma coroa.
Mas a guerreira foi sem sorte.
A polícia bateu, deu tiroteio. Dessa vez escapou da morte.
Mas não escapou da cadeia que pegou.
Penitenciária feminina, meu Deus, aonde vim parar?
Como cheira mal este lugar!
Aqui dentro, esquecida pelas amigas
e pela rapaziada que ela mesma sustentava.
Mas aqui tudo é diferente. As pessoas lá fora se esquecem da gente.
Ó, Deus, peço saúde pra minha mãezinha.
Pois eu só dei desgosto pra pobrezinha.
Aos meus filhos peço perdão por ter caído na prisão.
Domingo é dia de visitas e tudo pode acontecer.
Será, será que vem alguém me ver?
Já são 11 e 30, acabou a visita.
Lá dum canto a funcionária pitibum grita:
Vamos, vamos, gurias, tem que subir a galeria!
Mas tudo passa e tudo há de passar.
Aqui dentro ou lá fora, um dia minha sorte vai virar.
Aqui dentro ou lá fora, só Deus pra mudar nossa história.

MENINO POBRE
Michelle Albuquerque Ramires (Kovalski) - 15/08/2001

Conheci um menino pobre que sonhava em ser nobre.
De manhã entregava jornal, à tarde jogava futebol
num campo de terra, queimava no sol. Não tenho pai, não tenho mãe!
Ele dizia sempre assim: Tenho que fazer por mim!
Moleque sem maldade. Adormecia em qualquer canto da cidade.
Sonhando em ser nobre, em sair daquela vida de pobre.
Mas um dia de verão, colado na vitrine, vendo televisão,
quando se aproxima um cara bem vestido, querendo ser seu amigo.
Disse: Você foi escolhido! Tinha dinheiro de montão.
Uma pistola escondida. Acho que o cara é patrão.
Estava certa a minha intuição. Largou 500g na minha mão.
Disse pra mim passar, que eu não podia recusar,
que ele ia me ajudar. Às 3 em ponto eu vou voltar.
Me senti importante. Banquei o traficante.
Já são 3 em ponto: Que tanto dinheiro! Chego a tar meio tonto!
Era isso que ele queria: Bom menino, agradou a freguesia!
O cara olhava pra ele e ria.
Me deu uma grana legal: Dá mais do que vender jornal!
O tempo foi passando. A grana foi aumentando.
O menino cresceu: Agora o patrão sou eu!
Só anda de carro importado. Deu a volta por cima, esqueceu o passado.
Mas tudo o que é bom dura pouco. Começou a cheirar feito louco.
Tinha todo o tipo de mulher: loira, morena, casada, solteira.
Tudo era festa, maior bebedeira. Até conhecer aquela trapaceira,
vagabunda, ordinária. Sempre com uma navalha.
A mina cheirava a confusão. Mesmo assim, conquistou seu coração.
Dizem que o amor é cego. Mas quando é verdadeiro,
leva o homem ao desespero. A mina só queria era dinheiro,
vida de luxo, carrão. Trocou a navalha por um oitão.
Perigosa era ela. Ordinária, metida a donzela. Mina criada em favela.
Não quis mais saber dos amigos. A vida dele agora corre perigo.
Ô, cara, deixa de ser metido! Tenho uma história pra contar pra você:
Esta mina tá com HIV. E passou pra você.
I, o cara tava cheirado! Eu não devia ter contado.
Com a arma na mão, ele pediu pra ela uma explicação.
Eu não fiz por maldade, mas é tudo verdade.
Num grito de desespero (como o amor é traiçoeiro),
com uma PT engatilhada, descarregou em sua amada.
Romeu e Julieta.
Depois tirou a própria vida. Entregou a alma pro capeta.
Fatalidades do destino. Foi assim que acabou a vida do menino.

POEMA DA ANTECIPADA CERTEZA
Michelle Albuquerque Ramires - 15/08/2001

Drama obscuro, no entanto decifrável.
Não o desprezo, o meio ou fuga.
Faz tanto tempo foi vitorioso!
E a insistência pelo que nunca poderia
ter permanecido, a viagem geográfica?
O naufrágio sem clamor e a inútil
antecipada certeza nas mãos paralisadas
pela espera do alvará
para ter a minha liberdade!