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Dossiê dos Excluídos
Associação de Amigos do Casarão

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DOSSIÊ DOS EXCLUÍDOS DO CASARÃO

Janete Sanchez da Rosa - família nº 5 - 09/01/2002

Nós, moradores do antigo Casarão da CEEE, localizado na Rua Washington Luiz, nº 217, com fundos na Av. Loureiro da Silva (que usamos como entrada e saída), em frente à Câmara dos Vereadores de Porto Alegre/RS, estamos apelando para que as autoridades acabem com o acobertamento referente à nossa exclusão social. Será que já não chegou a hora para saber a Verdade? Então pensei uma forma de levar a verdade, para que o assunto da exclusão não fique somente em teorias, resumidas nas informações da mídia, e para que a vizinhança e aqueles que estão em condições de ajudar se sensibilizem com as nossas dificuldades e necessidades, que vêm dos infindáveis conflitos que a fome e a miséria proporcionam ao ser humano, encaminhando-o ao retrocesso, ao estado primitivo de primatas. Nosso retrocesso ao estado primitivo nos assusta e incomoda a sociedade que está em margem melhor do que a nossa em disciplina, condições de vida, lazer, prazer, saúde, higiene, agasalho, profissão, educação, habitação, alimentação e consideração. A realidade da exclusão está cada vez mais nítida, basta prestar atenção na mídia e ver o que a miséria leva o ser humano a cometer.

Chega de hipocrisia! Por motivo de exclusão, tive a idéia de fazer este dossiê dos excluídos. A discriminação de nossa posição perante a sociedade é extensa e tem relação também com os atos que a exclusão nos leva a fazer. Estamos recém engatinhando em direção à sociedade. Porque o interesse em nos ajudar tem sido muito pouco. E a sociedade, havendo nos desestruturado, está caindo de sua estabilidade em grandes parcelas.

Em nosso caso, há uma grande chance, por nosso interesse e pelas condições do espaço físico, de uma reforma em nossa identidade, para o pessoal se aprimorar e, após isso, compartilhar com outros excluídos o seu caminhar em direção à estabilidade social.

A exclusão não surgiu há pouco tempo, mas, se formos fazer um levantamento, não havia antes em grande parte o efeito das pequenas exclusões que se tornaram grandes. E aumentaram de extensão. Para desembaçar a dúvida, basta caminhar dentro de Porto Alegre. Isso que Porto Alegre não é a cidade do Rio Grande do Sul em que a miséria é maior. Pois só obtivemos promessas que não foram cumpridas, sendo que aqui residem 9 famílias (sem fazer referência aos agregados) cadastradas em 3 órgãos públicos: Polícia Civil, Brigada Militar e DEMHAB.

Pois nossas necessidades são divididas em áreas diferentes: saúde, paz, estabilidade de moradia, estabilidade de emprego e direito de alimentação. Há moradores de várias idades e escolaridades, inclusive pessoas que já exerceram profissão de carteira assinada. Há pessoas que não tiveram chance e já cometeram erros na sociedade. Se for feito um levantamento de dados de seus familiares, vai se ver que também foram excluídos da sociedade. Tenho certeza que foram a miséria e a exclusão que os induziram a se submeter, a errar, mas erraram em busca de igualdade e de sobrevivência. Se essas pessoas não fossem tão discriminadas e rotuladas a ponto de esconderem seus próprios conteúdos, se conseguissem oportunidades de vida estabilizada, não errariam só por errar. Aqui onde moramos, todos têm um gosto por algo de trabalho que poderia se tornar sustento, apoio aos outros excluídos e prazer em fazer o que se faz melhor.

Mas, sem contar as dificuldades que nos embaraçam, a nossa grande preocupação é não saber de quem essa área é, quem a está negociando, se já negociou ou não, quais são as intenções dos negociantes e o que querem fazer conosco. Como nós ficaremos? Não temos segurança de que não haverá despejo.

Além da miséria que sofremos, nem tranqüilidade temos, porque tem gente que mora aqui faz mais de 5 anos e não sabe se amanhã é certo que seu endereço vá ser aqui ou embaixo de uma marquise, pois tem sua família por inteiro devastada pela exclusão. E o pior é que temos crianças junto de nós sofrendo os efeitos da exclusão! O que resta ao futuro de nossos filhos, que são o futuro do novo milênio? Vão se aprimorar em quê? Vão ter esperança de quê? Vão procurar apoio para sua estabilidade aonde? É só analisar que exclusão vezes exclusão, sem oportunidade de estabilidade e sem alimentação para o estudo (que é um dos únicos socorros contra a marginalidade tecnológica do futuro), resulta em ações erradas perante a sociedade.

Já faz algum tempo que nós, os excluídos, tentamos mudar o nosso quadro que a sociedade já pintou em meio a tanta dificuldade e à falta do apoio de técnicos nessa área da exclusão. Não conseguimos organizar nossas próprias vidas. Pois dentro de cada uma das 9 famílias tem um desejo por igual, se superar e organizar o local, que conta com um vasto espaço para ajudar os que na mesma situação se encontram. Entre as 9 famílias, não são só problemas; qualidades também há!

Há também uma grande falta de condições de moradia. Entre o que é de mais urgência, falta iluminação (muita gente de fora ainda faz a travessia do local para fugir após cometer danos na redondeza), portões, pintura, uma boa cerca, campainha e uma fiação melhor (pois a nossa já pegou fogo diversas vezes). Só tem um banheiro desentupido e 2 chuveiros para uso das 9 famílias. 4 delas não têm encanamento de água em sua peça. Sem contar com a falta de segurança que temos e a saúde precária que o local nos oferece, até mesmo com o risco de mais desmoronamento.

E para piorar nossa situação, quando vamos procurar uma chance de trabalho, esse é o único local que temos como referência de endereço, o que nos atrapalha, pois já saíram diversas manchetes de jornal nos rotulando de marginais que ocupam a área. Por exemplo: gatunos de toda ordem e assaltantes da pesada, no Jornal do Comércio de 22/09/2001. Pois isso muito nos rebaixou e nos deu menos chance de conseguir emprego em alguma escala social, pois a sociedade não oferece emprego a assaltantes da pesada. A rotulação nos caiu muito mal.

Mas posso escrever um pouco de cada um dos chefes das 9 famílias:

No nosso caso, nos rotularam como excluídos. Não nos deram oportunidade de demonstrar nossos conhecimentos. Não nos deram oportunidade de estender nossos conhecimentos. O mais deprimente de tudo é saber que tem órgãos de diversas áreas que poderiam nos encaminhar e nos orientar. E, a partir daí, seus deveres estariam cumpridos. Nosso desamparo é muito extenso, pois moramos no Centro da cidade, em frente à Câmara dos Vereadores, e não perceberam as nossas necessidades.

Poxa, somos cidadãos! Gostaríamos que as pessoas conseguissem se sensibilizar com a nossa exclusão até de ser cidadãos e de ter direitos. Excluídos os cidadãos de todos os seus direitos, só lhes resta sobreviver e desacreditar que dias melhores virão. E viver como primatas em pleno ano 2002, pois não estamos conseguindo ser cidadãos. E se a sociedade não se sensibilizar e continuar a se fazer de cega ou a tapar o sol com a peneira, se ela só se interessar em tecnologia, quando for se deparar com os jovens que governarão o futuro, eles estarão primatas. E quem tentar estruturar seus filhos, dificilmente conseguirá. Eles não vão ter a proteção de seus pais 24 horas por dia e vão ter contato com os que retrocederam à condição de seres humanos primatas.

Digo por meu exemplo. Meus primeiros contatos com os excluídos foram quando tinha meus 15 anos. Eu ouvia muitos vizinhos incriminar os moradores de uma vila como baderneiros, preguiçosos e ladrões. Tive uma grande curiosidade de ir a essa vila e a saciei indo escondida até lá. Percebi que o que havia era pobreza. Não me bateram nem me escorraçaram. Me atenderam muito bem, por sinal. Até tive na época um namorado que morava nessa vila. Observei que alguns até usavam drogas, como eu ouvia falar, mas quem sabe seria para não entrar em depressão?

Hoje é bem mais cruel, eu sou uma excluída de oportunidades. E os jovens do futuro não estarão livres de ter contato e vão cair da escala social como eu caí. E os jovens do futuro se tornarão primatas, com diploma guardado na gaveta da cômoda. Pois, como isto? Basta eles se comoverem ao ver que as informações que tiveram não eram pura realidade e despencarão de sua escala social.

Mesmo havendo erros e dificuldades nossas, peço que estudem um jeito de nos ajudar. Lembrem-se: no pouco que podemos, conseguimos muito. Então tentem o pouco que podem! Chegou a hora de pararem de nos rotular! Venham avaliar nossos conteúdos e ajudem-nos a aproveitá-los ao máximo!

Eu, Janete Sanches da Rosa, 24 anos, tendo completado somente a 4ª série de escolaridade (como leram no começo do dossiê), tendo minha família desorganizada pela exclusão (já obtivemos diversos fracassos), não tendo companheiro (mas tendo 2 filhos sob minha responsabilidade), não tendo nem bens materiais (dependia de meu ex-marido), nem renda (sem contar que tenho dificuldades particulares), acredito que pode mudar nossa situação! O que falta para a sociedade acreditar que podemos e queremos mudar? Pois não queremos ajuda que nos leve à dependência, queremos descobrir como superar, nos desenvolver e ser independentes!

Pensamento:

Que ser ousa dizer ser um ser humano que consegue somente amar os mais próximos de sua procriação, que são descendentes e parentes distantes de tudo que se diz ser um ser humano? Que amor, que pequeno amor este que cobre somente parcela pequena de parentes, descendentes de ser humano?

Porque o portal mais difícil de se abrir, que são os portões do coração, não se abre com o berro de Abre-te, Sésamo! Sua abertura vem logo após recuperar-se de tabus e mágoas, com amor a todos os nossos semelhantes, por igual. Abrindo, de forma harmoniosa, corações e mentes. As trancas e fechaduras que proíbem o sucesso completo são o ódio, a revolta e a mágoa. O sentimento que apodrece o sucesso é tu achar que és capaz de seguir só tua jornada. Sozinho, ninguém vai longe.

Transcrição, por Miriam, de autor desconhecido:

A vida é muito fácil de ser vivida. Viva-a intensamente. Tire proveito de cada experiência vivida, mesmo aquelas que chamamos de erros. Viva o presente, esqueça o passado e não tente adivinhar o futuro. Cada experiência vivida é um passo no caminho da vida e vamos por esta vida vivendo-a sempre melhor...

Observação:

Escrevi levantando dados dos moradores com sua autorização, juntamente com seu consentimento e com seu auxílio e opiniões, havendo trechos com meu ponto de vista.